A atleta Lívia Barasine, faixa-marrom de Jiu-Jitsu, utilizou suas redes sociais no último domingo (3) para tornar público um relato de abuso sexual e intimidação envolvendo o nome de Melqui Galvão, treinador renomado atualmente preso e investigado por supostos crimes sexuais.
Em uma série de publicações em sua conta oficial no Instagram, a faixa-marrom detalhou a experiência e afirmou ter sido vítima de abuso sexual cometido por alguém que ocupava posição de liderança e confiança dentro do ambiente esportivo.
No comunicado, Lívia descreveu a relação inicial de admiração e confiança que mantinha com a pessoa denunciada, destacando que o vínculo também se estendia à sua família e a outras atletas que frequentavam o mesmo círculo esportivo.
“Eu fui vítima de um crime sexual cometido por alguém que, até então, eu admirava. Eu via essa pessoa como um líder, como um exemplo a ser seguido. Ele tinha a minha confiança, a confiança dos meus pais e também a confiança dos pais de outras meninas que, assim como eu, também foram vítimas.”
Segundo a atleta, os impactos da situação foram além do episódio em si e afetaram diretamente sua estabilidade emocional. Lívia Barasine relatou um período prolongado de sofrimento psicológico, marcado por tentativas de intimidação e pressão para que não levasse a denúncia adiante. Entre os episódios citados, estariam ameaças relacionadas ao fim de sua carreira no esporte.
A faixa-marrom afirmou ainda que outras vítimas teriam vivenciado situações semelhantes, sugerindo um possível padrão de comportamento. Em seu pronunciamento, reforçou que não apenas Melqui Galvão, mas também pessoas ao redor dele, teriam participado de ações voltadas a descredibilizá-la e silenciá-la.

Em um dos trechos mais contundentes do relato, Lívia Barasine declarou ter enfrentado um processo de manipulação emocional e coerção após o ocorrido.
Segundo ela, houve tentativas de inverter responsabilidades, fazendo com que acreditasse carregar culpa sobre os fatos, além de forte insistência para que desistisse da denúncia formal. A atleta definiu o período como um processo de “tortura psicológica, pressão e coação”.
De acordo com Lívia, o caso aconteceu em fevereiro e já vinha sendo apurado pelas autoridades antes de se tornar público. Ela ressaltou que o apoio familiar foi determinante para reunir forças e formalizar a denúncia.
Outro ponto abordado foi uma suposta tentativa de intimidação por meio de referências a contatos e influência junto a autoridades policiais. Apesar disso, a atleta afirmou confiar no trabalho das instituições responsáveis pela investigação.
Ao final do pronunciamento, Lívia agradeceu o acolhimento recebido pela Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), unidade responsável pelo acompanhamento do caso, e reforçou a importância de denunciar situações semelhantes dentro do esporte.
O caso segue sob investigação e amplia ainda mais a repercussão em torno das denúncias envolvendo Melqui Galvão, gerando forte debate sobre segurança, proteção de atletas e relações de poder no ambiente competitivo do Jiu-Jitsu.

Confira abaixo o depoimento de Lívia Barasine na íntegra:
“A dor de falar, a coragem de denunciar. Hoje estou aqui para falar sobre o assunto que todos já imaginam qual é. Isso não é uma nota de esclarecimento, é o meu relato como vítima. Eu fui vítima de um crime sexual cometido por alguém que, até então, eu admirava. Eu via essa pessoa como um líder, como um exemplo a ser seguido.
Ele tinha a minha confiança, a confiança dos meus pais e também a confiança dos pais de outras meninas que, assim como eu, também foram vítimas. Ainda estou tentando entender tudo o que aconteceu e o que ainda está acontecendo. Para mim, é muito difícil falar sobre isso. Lembrar me causa dor.
Não foi só o meu corpo que foi violado, mas também a minha saúde mental. Nos últimos meses, eu vivi momentos muito difíceis. Sofri tortura psicológica, pressão e coação. Não só por parte do meu abusador, mas também de pessoas ao redor dele, que tentaram me calar. Assim como outras vítimas que passaram pela mesma situação.
Eu só consegui denunciar porque tenho meus pais ao meu lado. E porque Deus colocou pessoas no meu caminho que me mantiveram em pé quando eu já não tinha mais forças e nem esperanças de seguir em frente.
Como todo abusador, ele tentou me calar. Tentou calar a minha família também. Ameaçou meus sonhos, minha carreira, disse que eu não teria mais oportunidades no esporte. Além disso, tentou inverter a culpa, fazendo eu acreditar que a responsabilidade era minha, e tentou me coagir a desistir de levar isso adiante. Eu nunca quis que nada disso acontecesse, Nunca quis prejudicar qualquer colega, assim como nunca quis passar por isso.
Hoje eu entendo que essa culpa não é minha. O que me deu coragem foi saber que eu não estava sozinha. Saber que ele já tinha feito isso, e até coisas piores, com outras meninas que também foram ameaçadas. O que me fez seguir em frente foi entender que a minha denúncia poderia impedir que outras pessoas passassem pelo mesmo no futuro.
Antes que alguém questione, isso aconteceu em fevereiro, e a denúncia já estava sendo investigada em sigilo. Neste momento, eu só peço que não nos julguem. Nem a mim, nem às outras meninas. Nós somos vítimas. E denunciar alguém assim exige uma força que eu sozinha não teria. Ele sempre deixou clara sua suposta ligação com autoridades policiais, como forma de intimidação.
Mas eu acredito na polícia e sei que eles não compactuam com isso. Agradeço à 8ª DDM de São Paulo, que me acolheu e segue trabalhando pela justiça. Sou grata a todos que me apoiaram. Eu só quero me reconstruir e continuar lutando pelos meus sonhos. Aos meus colegas de treino, vocês não estão sozinhos. E você que também foi vítima, não se cale. Você não tem culpa. Denuncie.”

