A jornada no Jiu-Jitsu é marcada por diferentes desafios a cada graduação, mas, na avaliação do tetracampeão mundial Guilherme Mendes, existe uma etapa especialmente complicada: a faixa azul.
Durante participação no podcast “Art of Jiu-Jitsu”, o faixa-preta e professor explicou por que considera esse período o mais difícil da evolução de um praticante e destacou a importância de controlar as expectativas para não transformar o aprendizado em uma experiência frustrante.
“Para mim, a faixa azul é provavelmente a fase mais difícil se você não tiver seus pensamentos bem organizados. É onde você se sentirá mais frustrado e deve entender que é muito importante se concentrar em si mesmo e evitar comparações”, afirmou Gui Mendes.
Segundo o multicampeão na arte suave, uma das principais razões para essa dificuldade está na mudança de perspectiva em relação ao próprio desempenho. Enquanto os faixas-brancas normalmente começam a treinar conscientes de que ainda estão aprendendo os fundamentos, os praticantes que recebem a primeira graduação colorida passam a criar expectativas maiores sobre suas habilidades e começam a observar com mais atenção o nível dos companheiros de academia.
“Como faixa azul, você começa a ter expectativas sobre o nível que deveria atingir e começa a se comparar com outros faixas azuis da academia. Acho que isso pode ser muito frustrante”, explicou.
O tetracampeão mundial na faixa-preta também chamou atenção para as diferenças de experiência entre pessoas que alcançam a mesma graduação. Como exemplo, citou crianças que começam a treinar aos cinco anos e chegam à faixa azul aos quinze, acumulando uma década de vivência nos tatames. Em contrapartida, um adulto que inicia no esporte aos vinte, trinta ou quarenta anos pode alcançar a mesma faixa em pouco mais de um ano de treinamento.
“É claro que eles terão muito menos experiência e uma formação muito mais fraca do que alguém que treina há 10 anos”, observou Guilherme Mendes.
Na visão do professor, ignorar essas diferenças e utilizar a graduação como único parâmetro de comparação pode prejudicar a motivação dos praticantes. Ele afirmou que, ao longo dos anos, acompanhou alunos que se decepcionaram por acreditar que estavam evoluindo mais lentamente do que outras pessoas e acabaram perdendo o interesse pelo esporte.
“Ao longo dos anos, vi muitas pessoas ficarem desapontadas ou usarem esse tipo de comparação injusta para tentar julgar sua trajetória no Jiu-Jitsu e, muitas vezes, acabam desistindo ou perdendo a motivação.”
Por isso, Gui Mendes defende que cada praticante avalie seu desenvolvimento levando em consideração a própria história e as condições em que começou a treinar: “Todos nós temos origens diferentes e trilhamos caminhos diferentes no Jiu-Jitsu. Se você pretende analisar a trajetória de alguém para ver se está progredindo rápido o suficiente, acho importante encontrar alguém com uma história de vida semelhante à sua.”
Apesar das dificuldades, o brasileiro também enxerga a faixa azul como uma etapa importante e empolgante da formação. É nesse período que o aluno começa a compreender melhor suas preferências, desenvolver estratégias próprias e construir uma identidade dentro do Jiu-Jitsu.
“Para mim, a faixa azul é onde você começa a ficar bom em alguma coisa. Na faixa azul, você começa a desenvolver seu jogo, a definir o que gosta de fazer e a evitar situações que não gosta. E é onde as coisas começam a ficar mais divertidas, no sentido de que você começa a criar seu próprio estilo”, finalizou.
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