Uma denúncia grave envolvendo o cenário do Jiu-Jitsu veio à tona nos últimos dias após a atleta Alexa Herse acusar André Galvão, multicampeão e líder da equipe Atos Jiu-Jitsu, de assédio sexual. A jovem, de 18 anos, publicou um longo comunicado em suas redes sociais relatando um suposto padrão de comportamento inadequado ao longo de seis meses, incluindo contato físico indesejado durante os treinos e comentários recorrentes sobre sua aparência.
O caso teve repercussão imediata no meio do Jiu-Jitsu, com manifestações públicas de apoio à atleta e até comunicados de afastamento de alguns lutadores da equipe Atos Jiu-Jitsu, enquanto André Galvão divulgou nota negando categoricamente as acusações e classificando-as como “boatos falsos”.
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Para analisar o impacto do episódio e discutir caminhos para o esporte, a equipe do Recorte da Luta ouviu Luciana Neder, faixa-preta 3º grau de Jiu-Jitsu, neuropsicopedagoga, professora de Educação Física e fundadora da CDMJJ (Comissão de Direitos das Mulheres no Jiu-Jitsu).
Ao comentar como recebeu a notícia, ela afirmou: “Recebi com muita tristeza e indignação. É doloroso ver mais uma equipe envolvida em um caso de assédio, especialmente uma equipe com tantas meninas e mulheres. A decepção é enorme, mas sendo muito honesta, para mim não é surpresa. Porque o corpo feminino no Jiu-Jitsu ainda é constantemente sexualizado e objetificado”, disse Luciana Neder, que seguiu:
“A presença das mulheres muitas vezes é deslegitimada, ignorada e tratada como algo secundário dentro da equipe e da academia. Há anos eu presencio e também recebo relatos de diferentes formas de violência, como assédio moral, psicológico, físico e sexual dentro de espaços que deveriam ser de formação, cuidado e aprendizagem. Então o impacto é profundo. Casos assim afastam mulheres diretamente do esporte, geram medo, silenciam a trajetória das mulheres e interrompem o sonho delas. Não é um problema individual, é um problema estrutural, que compromete toda a cultura do Jiu-Jitsu”.

Sobre como a comunidade deve reagir diante das denúncias e seus desdobramentos, Luciana Neder apontou para a necessidade de mudanças estruturais e de postura institucional.
“A primeira mudança precisa ser cultural. Eu venho denunciando há muito tempo a ‘brotheragem’ no Jiu-Jitsu. Existe um pacto de silêncio que protege os agressores. E mesmo quando há denúncias consistentes e até condenações, a gente vê pessoas e instituições defendendo esses homens. E não são só indivíduos ‘passando pano’, são academias, equipes grandes, federações. Isso é gravíssimo”, alertou Luciana, que completou:
“Enquanto a lealdade for ao agressor, e não à vítima, nada vai mudar. Essa cultura precisa acabar. A gente precisa de responsabilização real e protocolos claros, investigações sérias e posicionamento público das instituições. A neutralidade, nesse contexto, é cumplicidade.”
Ao falar diretamente às atletas, Luciana Neder destacou a importância da denúncia e da construção de redes de apoio.
“Eu costumo dizer para denunciarem. Tem que denunciar. Eu sei que não é fácil, dá medo, dói e cansa. As pessoas tendem a não acreditar, a te julgar… Muitas vezes a vítima é isolada até dentro da equipe. Mas o silêncio só protege quem agride. Quanto mais mulheres falarem, mais a estrutura começa a ruir. A denúncia rompe a naturalização da violência. Ninguém precisa passar por isso sozinha.”

A faixa-preta de Jiu-Jitsu também reforçou os caminhos de suporte: “Procure redes de apoio, grupo de mulheres coletivos, páginas feministas, jornalistas mulheres do Jiu-Jitsu. Pode até me procurar ou procurar direto a Comissão dos Direitos das Mulheres no Jiu-Jitsu. A gente precisa se fortalecer coletivamente. A coragem abre caminho para muitas outras. Uma mulher começa a falar e abre um novelo de lã, todo mundo começa a falar e toma coragem, porque a representatividade é muito importante nesses casos e para a mulher no Jiu-Jitsu.”
Por fim, ao abordar medidas para reduzir a recorrência de casos semelhantes, Luciana Neder defendeu mudanças na formação e na estrutura das instituições esportivas.
“Acho que a educação é a ferramenta central. Os professores não podem ser formados apenas tecnicamente, eles precisam também estudar sobre ética, sobre gênero, relações de poder e o papel social da mulher. O tatame também é um espaço pedagógico, ele ensina valores o tempo todo. As federações e instituições têm responsabilidade direta nisso, precisam fornecer formação obrigatória, criar políticas de enfrentamento à violência, estabelecer canais seguros de denúncia, protocolos de proteção às vítimas e consequências claras para os agressores.”
Luciana concluiu destacando a importância da representatividade e de mudanças institucionais: “Além disso, é fundamental colocar mais mulheres em cargos de decisão. A representatividade não é só simbólica, ela muda culturas, as prioridades e políticas. A mulher coloca em prática a experiência dela, coisa que o homem não passa na pele”.
“Sem transformação institucional, os casos continuam se repetindo. Acho que segurança não é um favor, é uma condição básica para que as mulheres possam permanecer no esporte. O Jiu-Jitsu é direito de todos, de homens, mulheres e qualquer outra orientação sexual, identidade de gênero e expressão de gênero.”

