A arte da vida: o Jiu-Jitsu perdeu a sua essência?

André Bintang é faixa-preta e professor de Jiu-Jitsu e comunicador (Foto: Reprodução) André Bintang é faixa-preta e professor de Jiu-Jitsu e comunicador (Foto: Reprodução)

Eu venho pensando muito sobre isso… sobre a essência do Jiu-Jitsu. Se, estamos nos afastando dela. E talvez essa reflexão só venha com o tempo. Com o amadurecimento. Depois de mais de 30 anos vivendo essa arte , atravessando gerações, aprendendo todos os dias, eu comecei a entender o que, de fato, ficou.

Vibro pelo crescimento do Jiu-Jitsu e sua evolução metodológica. Porém aprendemos que se nos afastamos muito da essência, perdemos força e identidade.

Na minha experiência, o que ficou não foi só a luta.

O que ficou foi o que essa arte construiu e ainda se transforma dentro de mim.

O Jiu-Jitsu me ensinou a lidar com o medo. Me ensinou sobre coragem, não aquela coragem impulsiva, mas a que nasce do enfrentamento diário. De acreditar mesmo diante de todos os desafios. Me ensinou sobre respeito. Porque no tatame você vê tudo. Um dia você vence, no outro você aprende. Um dia você é mais forte, no outro alguém te mostra que ainda há muito caminho.

E esse processo vai quebrando o ego, vai moldando o caráter, vai mostrando que ninguém é estático. Nada é permanente. Que todo mundo está em transformação.

E talvez esse seja um dos maiores ensinamentos. Respeitar o momento de cada um. O tempo. “Timming.”

Quando a gente olha só para o lado esportivo, a gente corre o risco de tocar apenas a superfície. E o perigo não está no esporte, porque o esporte é poderoso, ele transforma, ele disciplina, ele eleva. O perigo é achar que ele é tudo. Que o Jiu-Jitsu se resume à competição, à medalha, ao pódio.
Porque não é.

Outras artes marciais já passaram por isso. Cresceram muito através do esporte, se popularizaram, mas em algum ponto deixaram partes importantes da sua essência para trás. Filosofia, história, eficiência marcial. Você vê, por exemplo, praticantes que não conhecem a própria raiz da arte que treinam. E isso, pra mim, é um sinal de desconexão.

O nosso Jiu-Jitsu vem de algo muito maior.

Ele vem do Jujutsu, de um contexto de guerra, de estratégia, de sobrevivência. De um lugar onde corpo, mente e espírito precisavam estar alinhados. Onde existia honra, hierarquia, controle emocional, tempo de ação. Saber esperar. Saber agir.
Isso é marcial.

Mas também é arte.

Porque existe sentimento. Existe expressão. Existe verdade no movimento.

E quando essas duas forças se encontram, a arte e a guerra, nasce algo muito poderoso.

O Jiu-Jitsu carrega raízes orientais, mesmo sendo profundamente brasileiro. E o Brasil também trouxe algo único pra essa equação.

A família Gracie, presou muito mais pela filosofia, pela ferramenta transformadora, e por acreditar que estavam criando remédio para humanidade, do que a visão esportiva.

Se a gente olhar com profundidade, até nas nossas origens, nas nossas culturas, nas nossas lutas, existe essa conexão com o autoconhecimento, com o desenvolvimento interno, com o corpo como templo.

E quando eu falo de corpo, não é só físico.

É mente. É espírito. É o que sustenta você por dentro.

Por isso, pra mim, o Jiu-Jitsu nunca foi só sobre lutar. Sempre foi sobre entender. Sobre observar. Sobre evoluir como ser humano.

Sobre honrar quem somos.

E nutrir dentro de nós o espíríto do guerreiro.

E eu sinto que a gente tem uma responsabilidade como lutador.

Principalmente quem ensina, quem lidera, quem representa essa arte.

Passar com verdade, o que chegou até nós.

O que essa arte realmente entrega. Porque ela entrega muito mais do que um jogo. Muito mais do que uma vitória. Muito mais do que um sistema de técnicas.

Ela entrega uma ferramenta de transformação. Um filosofia de vida pautadas em princípio e valores da vida.

E o esporte faz parte disso. Ele é importante. Ele impulsiona, ele profissionaliza, ele cria disciplina, ele gera evolução. A gente precisa continuar crescendo nesse sentido.

Mas sem perder a essência.

Sem esquecer de onde viemos.

Sem deixar de honrar a família Gracie, que teve a coragem e fé de continuar acreditando apesar de todas as guerras.

Sem deixar de lado o que realmente sustenta tudo isso.

Porque, no final, o Jiu-Jitsu não é só sobre como você luta.

É sobre como você vive.

André Bintang e sua vivência de tatame, com vasta experiência nas artes marciais (Foto: Reprodução)
André Bintang e sua vivência de tatame, com vasta experiência nas artes marciais (Foto: Reprodução)

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