Multicampeão no Jiu-Jitsu e um dos grandes atletas da sua geração no esporte, Mica Galvão vem atravessando um momento extremamente delicado em sua vida. Isso porque seu pai Melqui Galvão, renomado professor de Jiu-Jitsu, está preso preventivamente sob graves acusações estupro de vulnerável, importunação sexual, ameaça e coação.
Desde que veio à tona publicamente, o caso vem gerando grande repercussão na comunidade da arte suave e provocando uma intensa discussão sobre segurança, relações de poder e responsabilidade coletiva no ambiente esportivo. O caso, que inicialmente se concentrava nas denúncias formais contra Melqui Galvão, passou a expor também discussões sobre cultura de silêncio, intimidação e dificuldade de denúncia enfrentada por atletas.
Em meio a isso, Mica Galvão utilizou suas redes sociais para fazer um forte relato sobre os anos de convivência com seu pai. Em um longo vídeo, de mais de 20 minutos, o campeão mundial expôs episódios que viveu desde a infância, relatando um ambiente de agressividade e silêncio durante sua criação, o que lhe provocou medo e demais sentimentos internos que lhe trouxeram problemas ao longo da vida.
Além do relato sobre as experiências traumáticas envolvendo seu pai, Mica Galvão aproveitou para, mais uma vez, prestar solidariedade às vítimas dos crimes sexuais praticados por Melqui, reforçando que está à disposição para ouvir e ajudar no que estiver ao seu alcance.
“Tenho recebido muito apoio aqui do meu lado, principalmente da minha sogra e da minha mulher. Acho que tem sido muito importante esses momentos de reflexão, justamente porque eu pensava que certas coisas que tinham acontecido na minha vida eu achava que eram normais, e eu pude perceber que não eram nem um pouco normais”, disse Mica, que seguiu:
“Eu vivi uma certa experiência que eu achei que era normal, só que conversando com minha irmã, minha mãe, minha sogra e minha mulher, percebi que não era tão normal assim. Aprendi que em todo momento que a gente tinha mais pesado, eu acabava rindo, fazendo piada, e acho que esse foi nosso mecanismo de defesa.
Desde o início da minha vida, eu acho que venho sendo muito doutrinado a fazer certas coisas que hoje eu, como pai, posso perceber que eu não gostaria nem um pouco que meu filho tivesse essa experiência. Desde pequeno, sempre tive uma doutrina muito boa por parte de mãe, de muito amor. Nesses últimos momentos, ela (mãe) tem tomado muito baque, muito choque, porque tem pessoas comentando coisas que nem sabem do que a gente passa”.

Ao longo do depoimento, Mica Galvão trouxe mais detalhes da sua infância, revelando episódios em que ele e sua irmã sofreram com agressões físicas e psicológicas por parte de Melqui. O vídeo publicado pouco depois de sua noiva, Amit Elor – campeã olímpica no Wrestling – também divulgar um vídeo trazendo o seu lado das experiências que passou com Melqui Galvão.
“Fui muito doutrinado a fazer coisas sem pensar, a não perguntar nada, a seguir ordens e fazer o que tinha que ser feito. Eu achava que tinha muita relação paterna e, no final, não era isso. Eu percebi que toda vez que eu opinava ou buscava trazer um pouco do meu pensamento, do que eu queria fazer, eu era recebido com certa agressividade, às vezes verbal, às vezes física. Eu sempre tive um certo medo e nunca entendia o motivo desse medo. Acabou afetando até certo ponto o meu relacionamento, a ponto da Amit (Elor, sua noiva), me perguntar porque eu tinha tanto medo de perguntar algo. À medida que fui ficando mais velho, foi ficando mais evidente que era algo muito difícil de sair”, disse Mica Galvão, que prosseguiu:
“(Quando eu era criança) Eu apanhava um pouco, mas minha irmã apanhou bastante. Eu tinha uma personalidade muito submissa, enquanto minha irmã era uma pessoa de gênio forte, e por isso nunca foi bem recebida. Teve um episódio que foi uma porradaria, onde nosso pai pegou e deu socos e chutes na minha irmã. Aquilo sempre ficou na minha cabeça… Tapas, aqueles tapas na cara de descer sangue, ‘lapada’ nas pernas para pegar e deixar marcado. A parte física (violência) sempre foi uma coisa que eu achava muito normal, só que o psicológico acho que foi o que mais pegou. Sempre tive muito medo de perguntar qualquer tipo de coisa, de opinar e falar”.
Confira abaixo outros trechos do depoimento de Mica Galvão:
“A Amit chegou a falar sobre o fato de eu ter que ganhar (competições) para conseguir vê-la. Eu acabei sofrendo um pouco na nossa relação, porque eu perguntava (para Melqui): ‘posso ver ela um pouquinho?’. E a resposta era ‘não, tem que treinar’. E eu respondia ‘ok’. Ficava sempre naquela dependência do resultado (do campeonato).
Quando fui ficando mais velho, esse peso (de não ter liberdade) continuava e eu não entendia o motivo. Quando a Amit estava grávida, foi uma dor de cabeça. Eu lembro que a gente estava no meu apartamento, meu lado paterno (Melqui) chegou e disse: ‘você tem que trazer ela para o Brasil, tem que começar a trazer ela para o Brasil’. E depois eu fui entendendo que isso era uma maneira de tentar manipular a pessoa. Era jogo mental pra caramba, jogo de sentimento…
Eu lembro nesse episódio do apartamento que nisso pensei: ‘F*dá-se campeonato, eu vou me mudar (para os EUA) para ficar perto do meu filho’, e nesse dia eu lembro que teve gritaria, que ele falou que iria se suicidar, puxou arma. Nossa relação era muito instável, essa foi só uma das situações.
Lembro que quando eu tinha 14 anos, eu estava na mesa de jantar e minha mãe não estava perto, fui servir salada e meu lado paterno disse: ‘bota mais salada nesse teu prato aí’, aí eu fiz sinal de silêncio, como todo jovem que está ganhando mais massa, mais forte, ficando um pouco mais rebelde… Eu tomei um tapão e isso nem me mexeu muito. Aí eu ouvi: ‘tá se achando fortão, qualquer coisa eu meto um tiro na tua cabeça’. Depois teve um pedido de desculpa, mas essas coisas foram ficando na minha cabeça.
Estou trazendo muitos relatos, mas o que eu quero dizer é: você que é pai, saiba que a palavra de vocês tem muito poder. Isso dá uma capacidade de afundar ou levantar o seu filho de uma maneira que você nem imagina.
Toda vez que eu precisava de algum suporte ou de qualquer outra coisa, eu ligava para minha mãe para perguntar o que ela achava. Ela sempre foi uma pessoa muito forte e me deu muito carinho. Depois de todas as situações que vieram a acontecer, nosso mundo meio que desabou, porque toda a família que a gente achou que tinha construído, era somente um lado vivendo. A gente é humano, todo mundo era, mas para tudo tem um limite.
Sofremos muito ao longo da vida, mas isso não é desculpa para nada. Se você tem alguma alegação para falar, pode falar. Eu sei a verdade, minha mãe e minha irmã também. A gente não estava conivente com nada disso, com nenhum desses atos. Eu treinei desde os meus 9 anos com algumas das vítimas. Eu já compartilhei casa, já morei junto, e quando uma das pessoas soltou um vídeo, me entristeceu muito. Como uma pessoa consegue esconder isso por tanto tempo, consegue mascarar por tanto tempo? Porque nem eu e nem minha mãe e irmã vimos nada. Fico imaginando como a pessoa tem essa capacidade de manejar e fazer certas coisas.”

