A multicampeã mundial de Jiu-Jitsu Kyra Gracie se pronunciou sobre o aumento de casos públicos de assédio no Jiu-Jitsu ao publicar um vídeo na última terça-feira (4), no qual relembra episódios que testemunhou e viveu durante os anos dedicados ao cenário competitivo.
O posicionamento ganhou ainda mais peso após a denúncia feita pela jovem atleta americana Alexa Herse contra André Galvão, líder da equipe Atos, nos Estados Unidos, reacendendo o debate sobre a cultura do esporte e a necessidade de mudanças estruturais no ambiente das academias e competições.
- Atletas acusam André Galvão de assédio em fortes relatos; líder da Atos nega e se pronuncia
- Lucas Pinheiro se afasta da Atos em meio à acusação de assédio envolvendo Galvão
- IBJJF se pronuncia após graves acusações contra Galvão: ‘Tratando com alta prioridade’
- Lu Neder comenta acusação de atleta a Galvão e cobra mudanças no Jiu-Jitsu contra o assédio
- Atos anuncia o afastamento de André e Angélica Galvão de cargos após denúncia de assédio
No depoimento, Kyra Gracie afirmou que permaneceu em silêncio por muito tempo sobre o que viveu e ouviu no meio do Jiu-Jitsu: “Eu resolvi que não posso mais ficar calada. E isso foi libertador para mim”, disse, antes de relembrar uma frase que escutou: ‘Imagina você peladinha dentro do meu kimono keiko’. Um senhor de idade falando isso para uma menina”.
A ex-atleta também detalhou o impacto pessoal da situação: “E essa menina era eu, com 18 ou 19 anos. Ele veio dizendo que queria me patrocinar, e eu congelei. Quando ele estava nos eventos, eu me escondia. Ele errou, e eu me calei. Guardei isso até agora, porque o ambiente silencia as mulheres”.
Ao ampliar o contexto, Kyra Gracie destacou que o problema não se restringe a casos isolados e que existe uma percepção equivocada de que sua trajetória teria sido imune a esse tipo de situação por fazer parte da condecorada família Gracie.
“O que acontece nos bastidores do Jiu-Jitsu não é uma exceção. É um problema do sistema todo. Faz parte da cultura do Jiu-Jitsu. Testemunhei centenas de casos, e por muito tempo tive medo de falar”.
Em outro trecho, ela completou: “Sei que vou ser criticada por só falar agora, mas o silêncio só protege os agressores. E a cada dia vão surgindo mais denúncias de assédio contra professores e nomes renomados do meio da luta. Claro que todos os casos devem ser apurados pela Justiça, mas eu quero falar que esse tipo de denúncia não me pega de surpresa. Quem viveu esse meio sabe que situações assim são tratadas com normalidade”.
Confira abaixo o vídeo publicado por Kyra Gracie em seu canal no YouTube:
Caso envolvendo a atleta Alexa Herse e André Galvão
O tema ganhou ainda mais repercussão após a denúncia feita por Alexa Herse contra André Galvão, no início da semana. Segundo a jovem atleta, o faixa-preta teria tido condutas inadequadas durante os treinos.
“Durante os treinos, ele me separava do parceiro de treino que eu havia escolhido, mandava meu parceiro treinar com outra pessoa e me obrigava a treinar com ele. Ele gemia de forma sexual no meu ouvido enquanto estava em cima de mim. E em outra ocasião, quando sua cabeça estava muito perto da minha, ele lambeu minha orelha”.

Em nota, André Galvão negou as acusações, afirmou que o relato teria ocorrido por vingança após saídas recentes da equipe e declarou que pretende tomar medidas judiciais.
Enquanto o caso segue em apuração, o posicionamento de Kyra Gracie amplia o debate sobre a necessidade de mudanças culturais e institucionais no Jiu-Jitsu, especialmente no que diz respeito à proteção das atletas e ao enfrentamento de denúncias de assédio dentro do esporte.

