Nika Schwinden opina sobre o assédio no Jiu-Jitsu e alerta para problema estrutural na sociedade: ‘Não é algo novo’

Faixa-preta reflete sobre o assédio no Jiu-Jitsu e destaca a importância de responsabilidade, escuta e acolhimento no esporte (Foto: Luciana Alves) Faixa-preta reflete sobre o assédio no Jiu-Jitsu e destaca a importância de responsabilidade, escuta e acolhimento no esporte (Foto: Luciana Alves)

Nos últimos dias, o cenário do Jiu-Jitsu, entre fãs e praticantes da modalidade, voltou a debater em peso questões envolvendo assédio e abuso. Por meio das redes sociais, atletas e professores prestaram apoio às mulheres na arte suave e discutiram soluções para que esses tipos de caso ocorram cada vez menos.

Diante desse cenário, a faixa-preta, professora e psicóloga Nika Schwinden, grande representante da arte suave feminina, concedeu entrevista ao “Recorte da Luta” e avaliou o impacto de tais episódios para o esporte e para as mulheres no Jiu-Jitsu, destacando que a situação expõe um problema estrutural e antigo.

“Infelizmente, essa situação atual acende um alerta muito grande para toda a comunidade do Jiu-Jitsu. Mas é importante dizer com honestidade: isso não é algo novo. Há anos sabemos que esse tipo de conduta está instaurado dentro de uma cultura e, quando falo em cultura, não me refiro apenas ao ambiente do tatame, mas a uma cultura social mais ampla, que atravessa diferentes espaços da sociedade”, disse Nika, que seguiu:

“O que vemos, muitas vezes, é que casos graves acabam sendo tratados como polêmica. Geram engajamento, viram conteúdo nas redes sociais, mas raramente resultam em medidas efetivas e estruturais para que deixem de acontecer. Falta ação concreta, falta responsabilidade contínua. O problema não é a exposição em si, mas o fato de que, na maioria das vezes, tudo fica no discurso e na voz da rede social, sem que mudanças reais saiam do papel”.

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Ao abordar como o Jiu-Jitsu e suas instituições deveriam reagir aos desdobramentos do caso, Nika Schwinden defendeu a necessidade de responsabilização e de encaminhamento adequado das denúncias, sem ignorar as limitações do sistema.

“Acredito que toda situação que envolve uma denúncia de assédio deve, obrigatoriamente, ser encaminhada às autoridades competentes para que seja devidamente investigada e, quando comprovada, que os responsáveis paguem o preço das suas próprias ações. Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que nem sempre a Justiça é tão eficaz ou rápida quanto deveria ser”.

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Na sequência, a faixa-preta reforçou o papel da sociedade e da comunidade esportiva no acolhimento às vítimas: “Por isso, enquanto sociedade, precisamos aprender a fazer melhor a nossa parte: oferecer segurança, acolhimento e, especialmente, escuta responsável às pessoas que têm coragem de denunciar. Denúncias desse tipo envolvem vidas, histórias, famílias e trajetórias inteiras, e não podem ser tratadas com descaso, espetáculo ou superficialidade”.

Questionada sobre a recorrência de casos semelhantes e a coragem das atletas em expor situações de abuso, Nika Schwinden contextualizou o problema como algo histórico e que vai além do ambiente do tatame.

“As denúncias podem parecer mais recorrentes hoje, mas é importante deixar claro que essas práticas, abusos, violências e condutas inadmissíveis não são novas. Elas existem há muitos e muitos anos, desde sempre. Especialmente as mulheres são historicamente vítimas desse comportamento social, que atravessa gerações”.

Em seguida, ao falar diretamente com as praticantes, destacou a importância do Jiu-Jitsu em sua trajetória, sem ignorar as contradições do ambiente social: “O que eu faço questão de dizer para toda mulher que está lendo essa matéria é: o Jiu-Jitsu salvou a minha vida. E eu vejo o Jiu-Jitsu salvar vidas todos os dias. Mas é fundamental entender que situações de abuso não são exclusividade do tatame”, alertou Nika, que seguiu:

“Mulheres estão expostas a isso no trabalho, no ambiente corporativo, em outros esportes e em diferentes espaços da sociedade. Infelizmente, vivemos em uma estrutura social que foi construída, em muitos aspectos, sobre abuso, uso de poder e violência, e combater isso é uma missão extremamente difícil”.

Por fim, ao discutir ferramentas e caminhos para que casos assim ocorram com menos frequência, Nika reforçou a necessidade de posicionamento, coerência institucional e transformação de discursos em práticas concretas.

“Muitas vezes sou até alvo de piadas, ouço que não vou mudar o mundo. Mas eu acredito, de verdade, que se cada um fizer a sua parte, a gente consegue deixar esse mundo um pouco menos pior. O que eu peço, de coração, é que essas situações não sejam usadas para descredibilizar o Jiu-Jitsu. Essa arte marcial resgata, acolhe e salva a vida de milhares de pessoas todos os dias. O problema não é o Jiu-Jitsu, o problema é quando seres humanos usam qualquer espaço para exercer poder de forma abusiva”.

Na sequência, a multicampeã na arte suave citou a importância do posicionamento de lideranças e do cumprimento efetivo de códigos de conduta: “Martin Luther King Jr. disse uma vez que não se preocupava tanto com os maus, mas com o silêncio dos bons. E, na minha opinião, essa é uma das chaves centrais para combater esse tipo de conduta. Uma das maiores ferramentas que temos é o posicionamento. O posicionamento claro e responsável, especialmente de pessoas que ocupam lugares de liderança”.

Nika finalizou reforçando a necessidade de ação prática e compromisso contínuo: “Isso envolve acolhimento real, escuta ativa e respeito aos códigos de conduta que muitas grandes organizações já colocam no papel, mas que, na prática do dia a dia, ainda são tratados de forma muito distante, quase utópica. Quando esses códigos não saem do discurso e não se transformam em ações concretas, eles perdem o sentido. Mas acredito que, se cada um fizer a sua parte, se comprometer de verdade a proteger pessoas, valores, caráter e boa índole, a gente começa, sim, a fazer a diferença. Não é um caminho simples, nem rápido, mas é necessário”.

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